Música no Linux
Faz alguns anos que voltei a usar Linux 100% do tempo no meu computador pessoal, e um dos motivos pelos quais eu havia parado de fazer isso há quase 20 anos eram os meus softwares de produção musical.
Veja bem, eu uso IA para traduzir os posts, não para escrever eles. Ao menos uma das versões dele vai ter sido escrita manualmente por mim, sem uso de assistentes de código. Neste caso, é o post em português mesmo.
Softwares
Eu utilizava muitos softwares proprietários que funcionam nativamente apenas em Windows ou MacOS como FL Studio, Maschine, Ableton Live e vários plugins VST que são feitos apenas para Windows e MacOS.
O meu software principal é o FL Studio, e é sabido que este em especial até consegue funcionar no Linux utilizando Wine. Porém, uma característica comum de softwares de produção musical é o fato de que eles têm interfaces elaboradas e que utilizam muita aceleração gráfica. A maior parte deles depende fortemente de DirectX, efeitos de composição, etc.
Quando eu executo o FL Studio no Linux, a experiência é sub-ótima: alguns travamentos aleatórios, interface quebrando em pontos específicos e outros pormenores que não são vistos à primeira vista, resultando em relatos de “funciona 100% bem”, mas que quebram completamente o fluxo de trabalho quando fazendo algo mais sério.
Buscando Alternativas
Eu preciso de alternativas para o seguinte:
- DAW - É o FL Studio, Ableton Live, etc.
- Plugins de Síntese de Som - São os plugins VST para geração de som ( sintetizadores) como Massive, Sytrus, Serum, etc.
- Plugins de Tratamento de áudio - plugins para:
- Equalizador de n bandas
- Delay
- Reverb
- Compressor multi-banda
- Limiter
- Entre outros.
- Editor de Áudio - Edison, Sound Forge, Audacity, etc.
99% do que eu preciso era provido pelo combo FL Studio + Maschine, sendo que a maior parte dos plugins built-in do FL Studio resolvem bem o problema.
Eu preciso não apenas de uma alternativa, mas de algo bom. Um exemplo é o editor de áudio, em que eu poderia simplesmente já estar usando o Audacity no Windows. Porém, o Edison que vem no FL Studio é muito superior em termos de performance, workflow e funcionalidade para produção musical, além de ser integrado ao FL Studio.
Felizmente, hoje em dia existe uma plenitude de softwares que cobrem este escopo E que estão disponíveis para Linux. E não apenas software Open Source, porém softwares comerciais equivalentes em funcionalidade e qualidade aos softwares mencionados anteriormente. Alguns exemplos:
- DAW -> Bitwig Studio, Renoise, Waveform, etc.
- Plugins VST:
No momento é mais uma questão de escolher um software, aprender a configurar tudo e gastar um tempinho aprendendo como usar a coisa toda.
A DAW: Renoise
Decidi pelo Renoise como DAW. Não sei se isso é algo do qual vou me arrepender mais tarde, pois ele muda completamente a abordagem de edição.
O FL Studio é um editor no estilo Sequencer, onde a gente visualiza as faixas na tela, com os clipes de som, midi, etc. em um timeline normalmente horizontal. É o modelo mais comum, e as alternativas comerciais mais próximas disso são o Bitwig Studio e o Waveform.
Já o Renoise é uma DAW no estilo Tracker, sendo uma das poucas opções comerciais e full featured para isso. Um tracker é bem diferente, ele dispõe as faixas da música de forma vertical e você digita diretamente o valor das notas e dos efeitos na matriz. É uma abordagem baseada em softwares que eram usados antigamente principalmente no Amiga, como o FastTracker II.
Existem ports de Trackers antigos como o FastTracker para Linux, como o MilkyTracker que inclusive é free, mas eu quero algo que funcione como uma DAW moderna com o estilo de tracker mais antigo.
Eu não tenho experiência com trackers, mas estou disposto a aprender.
Plugins de Efeitos
Acabei decidindo por pegar o DAW Essentials Collection da Tracktion devido a alguns motivos:
- Um pacote de plugins coesos, com interface similar e funcionamento similar.
- A Tracktion é uma empresa conhecida e que desenvolve produtos de qualidade ( apesar de eu não gostar da DAW deles, mas é uma questão de preferência).
- O site estava com 40% de desconto em tudo, o que fez os plugins sairem mais barato do que uma ida à churrascaria.
Existem pacotes de plugins FOSS que cumprem um papel similar (os plugins da SocaLabs, por exemplo), mas eu prefiro um produto consolidado de mercado e que vá me trazer estabilidade.
Depois que eu estiver afinado com o setup novo, posso testar mais os plugins open source e decidir se é viável substituir os plugins comerciais.
Plugins de Síntese de Som
Aqui é onde a coisa fica cara. O que eu acabei decidindo fazer é:
- Abraçar plugins FOSS na medida do possível.
- Utilizar plugins free.
- Utilizar soluções como o Cardinal para criar sintetizadores ad-hoc.
Um plugin como Massive ou Serum custa na casa das centenas de dólares, e eu tinha definido um budget curto de não gastar mais de 300 Reais nesta brincadeira toda de plugins. Eu já possuía a licença do Renoise, então ele não conta neste limite, mas os plugins da Tracktion custaram cerca de 200 reais.
O que eu preciso é o seguinte:
- Um plugin de síntese aditiva simples, com capacidades similares ao 3xOsc do FL Studio. Sim, um plugin desses é bem útil e pode ser pareado com os efeitos do DAW Essentials para gerar sons mais simples porém bem acabados.
- Um plugin de síntese FM ou um híbrido. Eu costumava usar principalmente Sytrus e Massive para isso.
Por esse motivo acabei adotando o seguinte:
- Vital como um dos plugins principais, pois tem uma versão free e os upgrades têm preços razoáveis ($25 para o tier Plus).
- Cardinal como um dos plugins para quando eu quiser fazer coisas mais esquisitas/elaboradas.
- Eventualmente comprar o Zyn-Fusion, que tem um valor razoável (começa em $45) e é um sintetizador lendário do mundo Open Source (ZynAddSubFx) porém com uma interface melhor.
Usando Plugins de Windows
Além de usar o Vital e o Cardinal, eu também quero ver como que funciona o uso do yabridge para executar plugins como o Massive e o Sytrus. Eu tenho licenças stand-alone de ambos os plugins, além de mais alguns da Native Instruments.
A ideia do yabridge é executar plugins de Windows no Linux, de forma a funcionar com hosts VST Linux.
Neste texto não vou cobrir a minha experiência com isso pois é algo que ainda tenho que entender como fazer funcionar (ex.: eu preciso da porcaria do Native Access para conseguir baixar o Massive). Quando chegar a uma conclusão eu escrevo um post aqui.
Opções Open Source
Quando eu comecei no mundo da música, eu usei muito plugin free e open source de desenvolvedores como o daedalus. Eu ainda quero voltar a explorar estes plugins, pois tem coisas bem específicas que só eles fazem (como emular determinados chipsets de computadores antigos). Mas no momento eu sei bem o que quero produzir, e é algo que eu preciso de capacidades de síntese mais gerais e samples.
Setup
Antes de começar a usar o software, é necessário fazer algumas configurações no sistema. No meu caso, eu uso Ubuntu onde o servidor de áudio padrão é o pipewire. Softwares como o Renoise esperam utilizar o ALSA ou o Jack como servidores de áudio, devido a questões de buffering e latência. Eu tenho uma interface de Áudio que é compatível com o Linux (Komplete Audio 6 MK1), portanto é só uma questão de configurar as coisas para os softwares utilizarem ela da forma correta.
Pipewire-Jack
No mundo do Linux, o Jack é meio que o equivalente ao ASIO. Com ele, a gente
consegue utilizar a interface de áudio com latência mais baixa. Porém, com o
Pipewire apenas instalar o jackd não funciona. Precisamos instalar o
pw-jack:
sudo apt install pipewire-jack qjackctl
No comando acima também está sendo instalado o qjackctl, que é a melhor interface para controlar e configurar o roteamento do Jack.
Existe um problema: quando o Renoise inicia, ele tenta rodar em um servidor Jack
que esteja rodando no sistema, e caso não consiga ele vai tentar subir um novo.
Porém, ele tenta subir o jackd e não o pw-jack, que é um daemon jack
conectado ao pipewire.
Para que isso aconteça, precisamos iniciar as aplicações no terminal utilizando
o comando pw-jack na frente do nome da aplicação:
pw-jack renoise
Isso é inconveniente pois precisamos ficar abrindo o terminal para disparar as aplicações. Não apenas isso, precisamos usar o terminal para cada aplicação que formos iniciar.
A solução mais simples é fazer um link a nível de sistema, substituindo o
jackd (que vai ser instalado como dependência do qjackctl) pelo pw-jack:
sudo cp /usr/share/doc/pipewire/examples/ld.so.conf.d/pipewire-jack-*.conf /etc/ld.so.conf.d/
sudo ldconfig
Isso vai fazer com que toda vez que um software tente usar o jackd padrão, ele
use o pw-jack.
Uma coisa BEM importante e meio chata: para o sistema “transicionar” para o modo de áudio em tempo real, não pode ter nenhum aplicativo tocando som. A princípio isso não é um problema caso você seja uma pessoa focada e que faz música em silêncio. Não é meu caso, eu ouço YouTube e faço música ao mesmo tempo, e o meu YouTube faz com que o Renoise não funcione direito. A solução é simples: pausar o YouTube, ir nas configurações -> áudio -> reinitialize e só depois dar play no YouTube novamente.
VSTs
Os plugins VSTs precisam ficar em uma pasta que seja escaneada pelo software que
você vai utilizar. No Renoise, esse caminho é definido pelas variáveis de
ambiente VST_PATH e VST3_PATH. Além disso, algumas pastas são padrão, como
~/.vst3. Neste caso o que eu achei melhor fazer foi criar uma pasta VSTs na
minha pasta de documentos e substituir o ~/.vst e ~/.vst3 por links.
Minha pasta Documentos é sincronizada na nuvem, o que significa que caso eu reinstale a máquina ou venha a perder o meu disco, eu consigo reproduzir o setup com facilidade depois de configurar a máquina novamente.
Isso é algo bem importante, pois os projetos dependem dos plugins carregados e funcionando para que toquem da maneira esperada. É um porre ficar reinstalando e reconfigurando VSTs toda vez que acontece alguma coisa no sistema, mesmo em um ambiente Windows em que a maioria das coisas funciona com instalador. Eu já passei muito por isso, portanto já estou me precavendo.
rm -rf ~/.vst
rm -rf ~/.vst3
ln -s ~/.Documents/musica/vst/vst2/ ~/.vst
ln -s ~/.Documents/musica/vst/vst3/ ~/.vst3
Alguns VSTs vão instalar direto nas pastas de VST, pois são distribuídos como
pacotes .deb. Outros precisam ser descompactados em uma pasta, e estes links
ajudam justamente com os que precisam ser descompactados na mão.
O que vem por aí
Depois de tudo configurado, o Renoise consegue carregar os VSTs e eu consigo começar a brincar nele.

Agora começa a parte divertida: experimentação, hiperfoco e barulho. Devo começar a usar os plugins que comprei, testar plugins novos e começar a postar o que vou descobrindo (e fazendo) por aqui.
Até a próxima. 👀